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segunda-feira, 28 de junho de 2010

Gil Vicente: A Farsa de Inês Pereira

No teatro medieval uma das mais famosas peças, representadas com sucesso até hoje, foi escrita por Gil Vicente...

Gil Vicente e A Farsa de Inês Pereira

Considerado o Pai  do teatro português, Gil Vicente nasceu em Guimarães (?) e viveu por volta de 1465 até provavelmente, 1536.

“A Farsa de Inês Pereira foi representada em 1523, inspirada no provérbio "mais quero asno que me leve, que cavalo que me derrube".

Inês era uma jovem cansada dos trabalhos domésticos e que procurava ansiosamente por um bom casamento. Seu primeiro pretendente foi Pero Marques, um lavrador rico e honrado, porém muito tosco para atender os desejos da jovem, que sempre sonhara com um marido galante e refinado.  Inês, finalmente, casa-se com o escudeiro Brás da Mata, que lhe é indicado por dois judeus casamenteiros, Latão e Vidal.

No início era galanteador e afável, após o casamento revela-se um marido tirano, daqueles que tranca a esposa em casa e coloca-a sob a vigilância dos empregados. Pouco depois do casamento, Brás vai para uma batalha no Norte da África, atingido pelas costas por um pastor mouro quando fugia, morre e Inês fica viúva. Agora, viúva e experiente, Inês resolve aceitar como marido o antigo pretendente Pero Marques.  Resolve também iniciar uma vida de festas para compensar o tempo que passara com o escudeiro como: ao dar esmola a um ermitão, reconhece nele a figura de um ex-namorado e marca com ele um encontro.

A peça teatral termina com Pero Marques conduzindo Inês nas costas até o local onde ela deveria encontrar-se com o amante.

A temática da peça está profundamente ligada à realidade vivida pela sociedade portuguesa da época de Gil Vicente como: o desejo de ascensão social da pequena burguesia, que vê no casamento numa forma de consegui-la, o oportunismo, o desprezo pela vida camponesa e o prestígio das maneiras cortesãs, a ignorância do rústico, embora rico a figura do camponês e sua ingenuidade, além da falta de escrúpulos que é o auge da peça.”

Personagens:
Inês Pereira: jovem esperta que se aborrece com o trabalho doméstico. Deseja ter liberdade e se divertir. Sonha casar-se com um marido que queira também aproveitar a vida.
Mãe de Inês: mulher de boa condição econômica, que sonha casar Inês com um homem de posses.
Leonor Vaz: fofoqueira, encarregava-se normalmente em arranjar casamentos e encontros amorosos.
Pero Marques: primeiro pretendente de Inês rejeitado por ser grosseiro e simplório, apesar da boa condição financeira. Foi seu segundo marido.
Latão e Vidal: judeus casamenteiros, assim como Leonor.
Brás da Mata: escudeiro, índole má, primeiro marido de Inês.
Moço: criado de Brás.
Ermitão: antigo pretendente de Inês e amante depois de seu casamento com Pero.
Fernando e Luzia: amigos e vizinhos da mãe de Inês.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

O Teatro Medieval II

Dramaturgia Medieval

No final da idade média e no começo do século XVI aparecem na Península Ibérica dois grandes dramaturgos que, sem sair da técnica teatral medieval, enchem-na de idéias novas, em parte já humanistas e renascentistas. La Celestina, de Fernando Rojas (?-1541), é antes um romance dialogado; obra de influência imensa na Europa de então. As peças de Gil Vicente guardam o caráter de representação para determinadas ocasiões, litúrgicas, palacianas e populares.

Autores medievais - No século XII, Jean Bodel é o autor do ''Jogo de Adam'' e do ''Jogo de Saint Nicolas''. Os miracles (milagres), como o de ''Notre-Dame'' (século XV), de Théophile Rutebeuf, contam a vida dos santos. E, nos mistérios, como o da ''Paixão'' (1450), de Arnoul Gréban, temas religiosos e profanos se misturam. A comédia é profana, entremeada de canções. ''O Jogo de Robin et de Marion'' (1272), de Adam de la Halle, é um dos precursores da ópera cômica.

Espaço cênico medieval - O interior das igrejas é usado inicialmente como teatro. Quando as peças tornam-se mais elaboradas e exigem mais espaço, passam para a praça em frente à igreja. Palcos largos dão credibilidade aos cenários extremamente simples. Uma porta simboliza a cidade; uma pequena elevação, uma montanha; uma boca de dragão, à esquerda, indica o inferno; e uma elevação, à direita, o paraíso. Surgem grupos populares que improvisam o palco em carroças e se deslocam de uma praça a outra.

CONTRIBUIÇÕES DO TEATRO DA IDADE MÉDIA

· Técnicas de encenações desenvolvidas pelos atores;
· Técnicas de cenário, iluminação e sonoplastia;
· Riqueza de figurino e maquiagem;
· Autos (ex.: de Natal, de Páscoa), representados até os dias de hoje.

Farsa
Era um quadro curto sobre uma cena cotidiana, caricaturada. Tinha a intenção de imitar a realidade, exagerando para torná-la mais sensível.
Muitas farsas podiam ser representadas por um só ator. Os temas eram grotescos e abusados: maridos corneados, espancamentos, roubos, etc.

Teatro Profano
O profano é a sátira ao divino. Associa-se em grande parte ao cômico. Não aparece como forma independente antes do século XIII, não se sabe de onde provém, aumenta sua influência quando a encenação sai da igreja. Nas praças e nas feiras, os jograis-mímicos profissionais exploram a literatura oral, recitam, cantam, executam monólogos dramáticos e mímicas dialogadas, imitando tipos (o louco, o bêbado, o tolo), tornando-se assim herdeiros e transmissores da antiga tradição latina. As companhias desta modalidade teatral buscavam a contravenção não só nos seus temas, mas também com a presença de mulheres em seu elenco e com maneiras diferentes de se apresentar: cantando, dançando e, às vezes, até se despindo.

MISTÉRIOS, MILAGRES E MORALIDADES

Mistério
Reconstituía passagens da Bíblia. Não se trata de um dogma no qual a Igreja se apóia, mas de histórias de Natal, Assunção, Ressurreição, etc.

No Mistério entrava tudo: o bom e o falso, o sério e o burlesco, o verídico e o lendário. Tinha como finalidade edificar a alma, mas também distrair o público, não havendo respeito à verossimilhança. Os papéis femininos eram representados por homens.

Sua apresentação, em seu apogeu, comovia uma cidade inteira, que pagava para assistir vários ciclos de
apresentações que duravam até quarenta dias para dar continuidade a uma história.

Foi o apogeu do teatro medieval quanto à perfeição dos meios empregados e a decadência quanto ao seu valor literário.

Estrutura do Espetáculo:

· Prólogo: explicação do que iria ocorrer;
· A peça em si: em versos (346 a 61.908 versos);
Não era dividida em atos e cenas, mas em jornadas, que podiam durar um dia inteiro, com pausa apenas para as refeições.

· Epílogo ou Prólogo final: que resumia os acontecimentos e convidava os espectadores a voltarem.

Não sobreviveu às guerras religiosas e à crise econômica. Outras causas de sua morte foram a ordem moral (o sarcasmo, a intimidade do divino com o profano) e a ordem técnica (não se adaptou aos novos tempos, sendo morto pelas idéias modernas).

Milagre
É uma peça de duração bem mais curta que o mistério. Baseado na vida dos santos. É a encenação de uma
intervenção de um santo ou da Virgem Maria. Produz-se geralmente em favor de uma personagem repugnante – sogra que matou o genro; religiosas que abandonam o convento, etc. A intenção é mostrar que não há crime, por maior que seja, que não possa ser redimido pelo fé.

O Milagre era estritamente ligado à religião, mas tratado livremente, comportando sempre um sermão encaixado no curso da ação. Era escrito em versos, variando seu comprimento de 1.000 a 3.000 versos.

Aproximadamente quarenta milagres chegaram aos nossos dias. Desapareceu no decorrer do século XVI, sendo conservado apenas na Espanha.

Moralidade
É um gênero ora grave ora alegre, que era representado mediante alegorias. Provam uma verdade de ordem moral, fazendo dialogar personagens alegóricos.
Tinha intenção didática: ensinar algo. Quando seu objetivo era religioso distinguiam-se dos mistérios porque
moralizavam em vez de contar.

Fontes Bibliográficas:
BERTHOLD, Margot. História Mundial do Teatro. São Paulo: Perspectiva, 2000.
Revista Tempo Brasileiro. Lígia Vassalo. Impresso nas Oficinas da Folha Carioca Editora LTDA, Janeiro-Março de 1983.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

O Teatro Medieval I

Introdução

O período da Idade Média ocorreu durante a desintegração do Império Romano no Ocidente, no século V (em 476 d. C.), e terminou com o fim do império, com a queda de Constantinopla, no século XV (em 1453 d.C.).

Este período entre os séculos V e XV d.C. também ficou conhecido como a “Idade das Trevas”, por causa da estagnação cultural da sociedade. A Igreja monopolizava toda e qualquer manifestação de pensamento, como por exemplo: a literatura, a filosofia, a ciência e as artes. O teatro era utilizado como instrumento da Igreja para arrebanhar fiéis e para catequizar o povo.

As peças eram de cunho religioso ou profano. Enquanto a igreja utiliza como instrumento de propaganda, grupos populares satirizavam o catequético, o Cristianismo. No entanto, utilizavam-se sempre do mesmo tema: a religiosidade.

O teatro medieval deriva do rito religioso (a missa cristã), do mesmo modo como, na Antiguidade, a tragédia grega. Ele se formou aos poucos, e surge da liturgia, isto é, da dramatização do texto da Bíblia lido durante o ofício divino.

"Os temas ficavam em torno da piedade e do temor a Deus, bem como pela imposição das regras e convenções de uma sociedade altamente normatizada."

As primeiras manifestações

As primeiras manifestações teatrais ocorreram na Plena Idade Média, seguidas de um grande florescimento na Baixa Idade Média. A sociedade feudal, rigidamente estratificada, compreende uma aristocracia, formada pela união da nobreza e do clero, e o “Terceiro Estado”, representado por servos e camponeses livres e, posteriormente, pela burguesia. No ápice do sistema de dominação encontra-se a Igreja Católica.

Para manter o statu quo a igreja descobre o teatro como fator capaz de disseminar sua ideologia de obediência e submissão aos valores estatuídos. Por esse motivo, o teatro é popular, dirige-se a todas as camadas do povo (e não à classe dominante), transformando-se no lugar privilegiado do desejo de ensinar inerente à arte medieval, presente no teatro religioso, no cômico e até na poesia narrativa, nos fabliaux. Mas, quando o clero não pode mais controlar as energias sociais que se lhe contrapõem e que se intrometem na representação teatral, ele proíbe então a representação dos mistérios (séc. XVI).

Na Alta Idade Média, a Igreja havia vetado igualmente, como manifestação pagã e fator de dissolução dos costumes, o remanescente teatro latino que já havia declinado com o final do Império Romano. O aparecimento do teatro religioso, no século XII, coincide com um ressurgimento dos clássicos latinos em alguns centros, como as escolas de Fleury-sur-Loire, em textos mais destinados à leitura do que à encenação. Porém antes disso, em torno do ano 1000, a freira saxã Hroswitha produz os primeiros dramas edificantes, onde mistura Teologia com Terêncio e Sêneca.

Naquele momento, dois conjuntos de manifestações culturais são muito desiguais e se desenvolvem, paralelamente,  correspondentes a dois tipos distintos de concepção do mundo. Por um lado, o universo religioso e, por outro, a cultura popular carnavalesca.

Esses dois campos vão se juntar na parte final da Idade Média. Mas, durante séculos, suas manifestações mantêm-se afastadas, ainda que correndo paralelas e sendo vivenciadas pelos mesmos homens. O medievo experimenta as duas sensações de mundo: a devoto-religiosa e a profano-carnavalesca. Ainda que o faça em momentos claramente diferenciados.

Vocabulário:
*Fleury-sur-Loire: Comunidade Francesa na região da Borgonha
*Fabliaux: História em quadrinhos, forte presença no nordeste da França, entre 1150 e 1400 d.C. Geralmente de naturezas picantes, muitos foram retrabalhados por Giovanni Boccaccio para o Decamerão.
*Statu quo: Estado em que se encontra./ A situação atual  Expressão latina que designa o estado atual das coisas, seja em que momento for.

Fontes de pesquisa: