quarta-feira, 23 de junho de 2010

Paulicéia Desvairada, de Mário de Andrade

Na biblioteca pública, sento-me para ler alguns livros, à minha frente um livro aberto e abandonado me chama a atenção, tomo o livro e folheio algumas páginas..... pela primeira vez eu lia: Paulicéia Desvairada.

(Fragmento de Retrato de Mario de Andrade, por Lasar Segall)

"Os alicerces não devem cair mais!
Nada de subidas ou de verticais!
Amamos as chatezas horizontais!
Abatemos perobas de ramos desiguais!
Odiamos as matinadas arlequinais!"

***
"Para que cravos? Para que cruzes?
Universalizai-vos no senso comum!
Senti sentimentos de vossos pais e avós!
Para as almas sempre torresmos cerebrais!"

A Paulicéia de Mario de Andrade não tem um roteiro, um enredo. É tão única, e somente, brilhante poesia.

Paulicéia Desvairada foi publicada em 1922, e trazia as primeiras bases estéticas do Modernismo. Marcou ali, o rompimento definitivo de Mario de Andrade com todas as estruturas do passado.

Com sua linguagem simples e irreverente, a obra traz como musa a cidade de São Paulo. No seu protesto às correntes dominantes (a burguesia) e ao progresso provinciano da cidade, Mario utiliza-se de erros ortográficos propositalmente, e de uma "gargalhante ironia" com "versos de sofrimento e revolta", como ele mesmo dizia.

Suas poesias podem ser lidas como um inventário das vivências e percepções que Mario de Andrade teve com a  modernização de São Paulo, e com a qual teve uma relação ambígua ao longo de sua obra. "A cidade ora é tumba de homens massacrados pelas "monções da ambição", de bandeirantes ou de capitalistas, ora é palco de multicoloridos festejos."


"São Paulo! comoção da minha vida...
Os meus amores são flores feitas de original...
Arlequinal!... Traje de losangos... Cinza e Ouro...
Luz e bruma... Forno e inverno morno...
Elegâncias sutis sem escândalos, sem ciúmes...
Perfumes de Paria... Arys!
Bofetadas líricas no Trianon... Algodoal!
São Paulo! comoção de minha vida...
Galicismo a berrar nos desertos da América"

terça-feira, 22 de junho de 2010

Poesia: Homem não chora

De Rolando Boldrin


Hoje aqui, oiando pra vancê meu pai,
To me alembrando quanto tempo faz
Que pela primeira vez na vida, eu chorei.
Não foi quando nasci pru que sei que vim berrando...
E disso ninguém se alembra, não.
Foi quando um dia eu caí...levei um trupicão,
Eu era criança. Me esfolei, a perna me doeu,
Quis chora, oiei pra vancê, que esperança.
Vancê não correu pra do chão me alevanta.

Só me oiô e me falô:
---Que isso, rapaz ? Alevanta já daí...
HOMI NÃO CHORA.

Aquilo que vancê falô naquela hora,
Calou bem fundo,
pru que vancê era o maió homi do mundo.
Não sabia menti nem pra mim nem pra ninguém...
O tempo foi passando...cresci também...
Mas sempre me alembrando..

HOMI NÃO CHORA. Foi o que vancê falô.
O mundo foi me dando os solavanco,
Ia sentindo das pobreza os tranco...
Vendo as tristezas vorteá nossa famía,
E as vêiz as revorta que eu sentia era tanta,
Que me vinha um nó cego na garganta,
Uma vontade de gritá...berrá, chorá...mas quá..
Tuas palavra, pai, não me saía dos ouvido..
HOMI NÃO CHORA

Intão, mesmo sentido, eu tudo engolia
E segurava as lágrima que doía...
E elas não caía, nem com tamanho de
Quarqué uma dô...

Veio a guerra de 40...e eu tava lá...um homi feito,
Pronto pra defendê o Brasí.
Vancê e a mãe foram me acompanhá pra despedi.
A mãe, coitada, quando me abraçô, chorô de saluçá.
Mas, nóis dois, não.
Nóis só se oiêmo, se abracêmo e despedimo
Como dois HOMI. Sem chorá nem um pingo.
Ah, me alembro bem... era um dia de domingo.

Também quem é que pode esquecê daquele tempo ingrato ?
Fui pra guerra, briguei, berrei feito um cachorro do mato,
A guerra é coisa que martrata..
Fiquei ferido...\com sodade de vancês...escrevi carta
Sonhei, quase me desesperei, mas chora, memo que era bão
Nunca chorei...
Pruque eu sempre me alembrava daquilo que meu pai falô:
---HOMI NÃO CHORA.

Agora, vendo vancê aí...desse jeito...quieto..sem fala,
Inté com a barbinha rala, pru que não teve tempo de fazê..
Todo mundo im vorta, oiando e chorando pru vancê...
Eu quero me alembrá...quero segurá...quero maginá
Que nóis dois sempre cumbinemo de HOMI nÃO CHORÁ...quero maginá que um dia vancê vorta pra nossa casa
Pobre..e nóis vai podê de novo se vê ansim, pra converá
Intão vem vindo um desespero, que vai tomando conta..
A dô de vê vancê ansim é tanta...é tanta, pai,
Que me vorta aquele nó cego na garganta e uma lágrima
Teimosa quage cai..
Óio de novo prôs seus cabelo branco...e arguém me diz
Agora pra oiá pela úrtima vez..que ta na hora de vancê
Embarcá.

Passo a minha mão na sua testa que já não tem mais pensamento....e a dô que to sentindo aqui dentro,
Vai omentando...omentando, quage arrebentando
Os peito...e eu não vejo outro jeito senão me descurpá.
O sinhô pediu tanto pra móde eu não chora..HOMI NÃO CHORA...o sinhô cansô de me falá...mas, pai,
Vendo o sinhô ansim indo simbora...me descurpe, mas,
Tenho que chorá.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

O Teatro Medieval I

Introdução

O período da Idade Média ocorreu durante a desintegração do Império Romano no Ocidente, no século V (em 476 d. C.), e terminou com o fim do império, com a queda de Constantinopla, no século XV (em 1453 d.C.).

Este período entre os séculos V e XV d.C. também ficou conhecido como a “Idade das Trevas”, por causa da estagnação cultural da sociedade. A Igreja monopolizava toda e qualquer manifestação de pensamento, como por exemplo: a literatura, a filosofia, a ciência e as artes. O teatro era utilizado como instrumento da Igreja para arrebanhar fiéis e para catequizar o povo.

As peças eram de cunho religioso ou profano. Enquanto a igreja utiliza como instrumento de propaganda, grupos populares satirizavam o catequético, o Cristianismo. No entanto, utilizavam-se sempre do mesmo tema: a religiosidade.

O teatro medieval deriva do rito religioso (a missa cristã), do mesmo modo como, na Antiguidade, a tragédia grega. Ele se formou aos poucos, e surge da liturgia, isto é, da dramatização do texto da Bíblia lido durante o ofício divino.

"Os temas ficavam em torno da piedade e do temor a Deus, bem como pela imposição das regras e convenções de uma sociedade altamente normatizada."

As primeiras manifestações

As primeiras manifestações teatrais ocorreram na Plena Idade Média, seguidas de um grande florescimento na Baixa Idade Média. A sociedade feudal, rigidamente estratificada, compreende uma aristocracia, formada pela união da nobreza e do clero, e o “Terceiro Estado”, representado por servos e camponeses livres e, posteriormente, pela burguesia. No ápice do sistema de dominação encontra-se a Igreja Católica.

Para manter o statu quo a igreja descobre o teatro como fator capaz de disseminar sua ideologia de obediência e submissão aos valores estatuídos. Por esse motivo, o teatro é popular, dirige-se a todas as camadas do povo (e não à classe dominante), transformando-se no lugar privilegiado do desejo de ensinar inerente à arte medieval, presente no teatro religioso, no cômico e até na poesia narrativa, nos fabliaux. Mas, quando o clero não pode mais controlar as energias sociais que se lhe contrapõem e que se intrometem na representação teatral, ele proíbe então a representação dos mistérios (séc. XVI).

Na Alta Idade Média, a Igreja havia vetado igualmente, como manifestação pagã e fator de dissolução dos costumes, o remanescente teatro latino que já havia declinado com o final do Império Romano. O aparecimento do teatro religioso, no século XII, coincide com um ressurgimento dos clássicos latinos em alguns centros, como as escolas de Fleury-sur-Loire, em textos mais destinados à leitura do que à encenação. Porém antes disso, em torno do ano 1000, a freira saxã Hroswitha produz os primeiros dramas edificantes, onde mistura Teologia com Terêncio e Sêneca.

Naquele momento, dois conjuntos de manifestações culturais são muito desiguais e se desenvolvem, paralelamente,  correspondentes a dois tipos distintos de concepção do mundo. Por um lado, o universo religioso e, por outro, a cultura popular carnavalesca.

Esses dois campos vão se juntar na parte final da Idade Média. Mas, durante séculos, suas manifestações mantêm-se afastadas, ainda que correndo paralelas e sendo vivenciadas pelos mesmos homens. O medievo experimenta as duas sensações de mundo: a devoto-religiosa e a profano-carnavalesca. Ainda que o faça em momentos claramente diferenciados.

Vocabulário:
*Fleury-sur-Loire: Comunidade Francesa na região da Borgonha
*Fabliaux: História em quadrinhos, forte presença no nordeste da França, entre 1150 e 1400 d.C. Geralmente de naturezas picantes, muitos foram retrabalhados por Giovanni Boccaccio para o Decamerão.
*Statu quo: Estado em que se encontra./ A situação atual  Expressão latina que designa o estado atual das coisas, seja em que momento for.

Fontes de pesquisa:

sábado, 19 de junho de 2010

Homenagem a Saramago

Um grande escritor sem sombras de dúvidas. Independente de suas opiniões polêmicas sobre política e religião, Saramago foi um homem que soube através da escrita despertar o leitor a um novo universo de grandes romances, poesias e crônicas, com uma visão crítica e contemporânea.

Hoje, em seu velório, em frente a Camara Municipal de Lisboa (Portugal), fãs gritavam: "Os grandes escritores são imortais".  Saramago deixa um belo legado de livros brilhantes e um romance inacabado (o novo livro falaria sobre o tráfico de armas) e imprime seu nome na história ao lado de grandes escritores portugueses como: Almeida Garret, Eça de Queirós e Fernando Pessoa.

O diretor Fernando Meireles comentou a morte de Saramago: "...o mundo ficou mais burro e ainda mais cego sem Saramago..."

(Foto BBCBrasil - Arquivo)

Em 2008, Meireles levou às telas o livro "Ensaio Sobre a Cegueira" de Saramago, que segundo o diretor, após assistir o filme, Saramago se emocionou e disse: “Fernando, estou tão feliz por ter visto esse filme... Como estava quando acabei de escrever o livro”, disse.

Em entrevista para a BBC Brasil Meirelles declarou:  "Saramago era um homem lógico, dizia que a morte é simplesmente a diferença entre o estar aqui e já não estar mais. Combatia as religiões com fúria, dizia que elas nos embaçam nossa visão", disse.

"Mesmo assim, não consigo deixar de pensar que adoraria que neste momento ele estivesse tendo que dar o braço a torcer ao ser surpreendido por algum outro tipo de vida depois desta que teve por aqui", acrescentou Meireles.

- Biografia

José Saramago nasceu na aldeia ribatejana de Azinhaga, concelho de Golegã, no dia 16 de Novembro de 1922, embora o registo oficial mencione o dia 18. Seus pais emigraram para Lisboa quando ele ainda não perfizera três anos de idade. Toda a sua vida tem decorrido na capital, embora até ao princípio da idade madura tivessem sido numerosas e às vezes prolongadas as suas estadas na aldeia natal. Fez estudos secundários (liceal e técnico) que não pôde continuar por dificuldades económicas.

No seu primeiro emprego foi serralheiro mecânico, tendo depois exercido diversas outras profissões, a saber: desenhador, funcionário da saúde e da previdência social, editor, tradutor, jornalista. Publicou o seu primeiro livro, um romance ("Terra do Pecado"), em 1947, tendo estado depois sem publicar até 1966. Trabalhou durante doze anos numa editora, onde exerceu funções de direcção literária e de produção. Colaborou como crítico literário na Revista "Seara Nova".

Em 1972 e 1973 fez parte da redação do Jornal "Diário de Lisboa" onde foi comentador político, tendo também coordenado, durante alguns meses, o suplemento cultural daquele vespertino. Pertenceu à primeira Direção da Associação Portuguesa de Escritores. Entre Abril e Novembro de 1975 foi director-adjunto do "Diário de Notícias". Desde 1976 vive exclusivamente do seu trabalho literário.


Obras Publicadas:

Poesia

*Os Poemas Possíveis, 1966
*Provavelmente Alegria, 1970
*O Ano de 1993, 1975

Crônica

*Deste Mundo e do Outro, 1971
*A Bagagem do Viajante, 1973
*As Opiniões que o DL teve, 1974
*Os Apontamentos, 1976

Diário

*Cadernos de Lanzarote I, 1994
*Cadernos de Lanzarote II, 1995
*Cadernos de Lanzarote III, 1996
*Cadernos de Lanzarote IV

Viagem

*Viagem a Portugal, 1981

Teatro

*A Noite, 1979
*Que Farei Com Este Livro?, 1980
*A Segunda Vida de Francisco de Assis, 1987
*In Nomine Dei, 1993

Conto

*Objecto Quase, 1978
*Poética dos Cinco Sentidos - O Ouvido, 1979

Romance

*Manual de Pintura e Caligrafia, 1977
*Levantado do Chão, 1980
*Memorial do Convento, 1982
*O Ano da Morte de Ricardo Reis, 1984
*A Jangada de Pedra, 1986
*História do Cerco de Lisboa, 1989
*O Evangelho Segundo Jesus Cristo, 1991
*Ensaio sobre a Cegueira, 1995
*Terra do Pecado
*Todos os Nomes

As obras de José Saramago encontram-se publicadas nos seguintes países: Espanha (Castelhano e Catalão), França, Itália, Reino Unido, Holanda, Alemanha (Edições na RDA e na RFA), Grécia , Brasil, Bulgária, Polónia, Cuba, União Soviética (Russo), Checoslováquia (Checo e Eslovaco), Dinamarca, Israel, Noruega, Roménia, Suécia, Finlândia, Estados Unidos, Japão, Hungria, Suíça, Argentina, Colômbia, México.

O seu romance "Memorial do Convento" foi adaptado para a Ópera pelo compositor italiano Azio Corghi, com o título "Blimunda".

A peça de teatro "In Nomine Dei" foi adaptada para a Ópera por Azio Corghi, com o título "Divara".


Fontes:
Entrevista Fernando Meirelles: BBC Brasil
Biografia e Obras Publicadas: http://www.caleida.pt/saramago/ 

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Fazendo o Videobook

A grande dúvida de todo jovem ator é saber qual a melhor forma de se fazer um videobook. O intuito deste artigo é esclarecer algumas dúvidas e dar algumas dicas aos que se sentem perdidos em relação a este importante material de divulgação.

Na verdade não existe uma única forma de se fazer um bom vídeobook, mas existem alguns cuidados que todo artista deve ter na hora de produzir o que será a sua apresentação para produtores de elenco:

Duração: Use no máximo dois textos de dois minutos cada, não mais que isso. Os produtores tem dezenas de vídeos de outros artistas para assistir, então não exagere no tempo. Um longametragem os deixará entediados e seu video será descartado de cara.

Texto: Escolha um (ou dois) texto com o qual se identifique: deve-se ter cuidado para não escolher algo exageradamente "dramático" com choro incessante, gritos, etc. - Se rasgar inteiro só vai mostrar que você tem algum problema emocional. - O ideal é fazer algo claro e objetivo onde seu rosto e sua voz apareçam sem truques. Atenção: Não use cenas de peças que você fez. Os produtores querem ver você atuando pra eles. Caso se sinta mais seguro, escolha uma cena para ser feita com um amigo, ao invés de um monólogo. Mas não esqueça, você é o objetivo do video. (A escolha do texto é pessoal, retire trechos de peças, contos ou filmes)

Roupa: Use algo básico, de bom gosto, que não tire a atenção do texto e interpretação, e que não se confunda com o "pano de fundo" do estúdio.

Maquiagem: Mulheres: Básica. Homens: Básica ou só um pó para tirar o brilho e diminuir as olheiras.Não carregue demais, deixe natural.

Capa do DVD: Não há regra. O ideal é ter seu nome, contatos (e-mail e telefone) e, se optar em colocar fotos, no máximo duas fotos profissionais. Com fotos ou sem, o importante é a informação e qualidade do acabamento final.

Montagem de Slides: Se além da "cena filmada" você optar em fazer um slide de fotos e trechos de vídeos, prefira material profissional: fotos e vídeos amadores ou de baixa qualidade podem prejudicar ao invés de enriquecer o seu videobook. Só use foto/video de TV ou publicidade onde você realmente possa ser visto. "Só as mãos não valem!"

Colocar Vídeo no Youtube: A critério de cada um. Muitas agências solicitam links com vídeos no youtube, no entanto, não é obrigatório e nem tão pouco eliminam alguém de uma seleção. A sua vontade e privacidade devem estar em primeiro lugar sempre. Uma melhor opção é entregar o videobook pessoalmente às emissoras e agências.

Com a exigência de agências de publicidade e emissoras de TV, esse mercado de "videobook" é cada vez mais crescente, e, consequentemente, surgem a cada dia inumeros pestadores deste serviço que deve ser feito com cuidado e com privacidade. O ideal é procurar profissionais recomendados por amigos, parentes e conhecidos para evitar aborrecimentos e frustrações futuras.

Segundo o ator Gustavo Haddad, que há algum tempo vem produzindo videobooks e filmagens de espetáculos, os preços variam de acordo com a produção que o artista deseja. Ele explica que um videobook pode custar de R$300,00 numa produção mais simples, até uma superprodução em torno de R$3.000.00. Gustavo, usa sua experiência na tv para dirigir e produzir os videos que faz: "...nos estúdios sempre ficava por detrás das cameras assistindo as cenas, vendo a direção, o enquadramento, etc..."

É isso! Para se fazer um bom vídeobook escolha alguns textos, leia com amigos, e consulte pessoas mais experientes, elas podem ter dicas valiosas.

Boa sorte!

Por Adriano Costello

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Reflexões Teatrais 6 - Kazuo Ohno


"A minha dança é a reza para a vida. O que me faz dançar é o sofrimento que carrego dentro do meu coração. A vida e a morte são inseparáveis, estão juntas dentro de mim enquanto eu danço, a vida é a reza,  a fé e a dança é também a mesma coisa."

"A dança não se ensina. Ela está dentro de cada um de nós. Primeiro tem que analisar sua vida. Quando entender sua própria vivência, surgirá sua própria dança."

Kazuo Ohno
(Dançarino e coreógrafo japonês/Mestre da dança Butô - 1906 à 2010)

Entrevista: Zé Celso Martinez Corrêa

(Zé Celso ensaiando a peça Taniko - Foto de divulgação)

José Celso Martinez

Por *Elisa Duarte/Revista Contigo!

O diretor começou a ser visto como referência teatral após o espetáculo O Rei da Vela (1967), de Oswald de Andrade, considerado uma das montagens mais inovadoras do diretor pelos acessórios, cenário e músicas.

Quais as bases para uma pessoa permanecer na carreira de teatro e perseverar na profissão de ator? Há um caminho a seguir?

Não há caminho certo. Ao contrário, é preciso inventar caminhos, impulsionado pelos teus desejos mais secretos, mais proibidos, considerados ''errados'', tabus pela maioria do rebanho. Mas o teatro você faz com outros, não é uma arte solitária. Você precisa comungar, comer e ser comido por pessoas que, por coincidência milagrosa no tempo, você encontra, que queiram partir contigo, na busca de dar pelo teatro mais vida às suas vidas e à vida de todo mundo: o público do seu tempo. É como encontrar muitos amantes, encontrar os parceiros de jogo desta orgia que é o teatro. Para permanecer nesta "roça", é preciso ser antes de tudo "um forte", pois você vai ter que dia a dia, noite a noite, conquistar tua permanência sambando na corda bamba da fatalidade, que são as transformações permanentes da vida e da morte. Estar plugado sempre em todo mundo, mas ir mais além no risco, na beleza, com ginga na arte de teatro, que é a mesma que a de amar e a de viver.

Qual o princípio básico de um ator? O que ele deve desejar em primeiro lugar?

Ator é o que age, atua em si mesmo, no outro, na matéria do mundo. O ator não ''deve'' nada, ele tem é de assumir seu poder humano, o poder do seu corpo, que é quem sabe o que ele, corpo, quer desejar. Atuar é desejar outros corpos do mundo, além das máscaras profissionais, da idade, de classe, dos armários, enfim, além do bem e do mal. Teu próprio desejo vai descobrir - no espelho do desejo dos outros você vai escolher como companhia através da poesia do teatro de hoje e do mais antigo.

Como prepara seus atores?

Preparando-me para merecer encontrar atores. Atuando sobre a coragem do meu instinto para entrar em sintonia com os que mexem comigo, isto é, que atuam comigo. É como o namoro. É difícil explicar por que você ama umas pessoas e não outras. Os atores e atrizes revelam-se como enamorados. A arte do teatro não é diferente da arte da paixão, de produzir e adorar a beleza, da arte de viver intensamente, enfim. Não há coisa mais deliciosa do que a vida de artista, mas custa muito caro. Precisa de muito instinto e felicidade guerreira.

O que pensa grande número de pessoas que buscam a carreira de ator apenas para ficarem famosas?

A arte do ator é a da interpretação da vida a partir do seu corpo, em contato com tudo e todos pelos seus sentidos. O ator que se vende para tornar-se celebridade, ter fama, ficar rico, ter prestígio social, sacrifica muitas vezes sua arte, que é a de interpretar-se e passa a ser interpretado pelos marqueteiros do ibope. Claro que o ator quer e merece ser reconhecido, é justíssimo, mas os que têm o que dizer ao mundo são mais ambiciosos, querem mais que ser celebridade, querem ser eternos, imortais na sua total mortalidade. Estes deixam vestígio de sua passagem no mundo, tatuam o coração da condição humana.


*Fonte: Revista contigo!

Mestre Kazuo Ohno - Morre o mestre do butoh


Conhecido mundialmente como o pai da dança Butoh, o dançarino japonês Kazuo Ohno morreu nesta terça-feira (01/06), em Yokohama, no Japão, aos 103 anos.


Junto de Tatsumi Hijikata (morto em 1986) Ohno foi um dos criadores do butoh (butô), estilo de dança moderna que inclui teatro em suas apresentações.

Vindo de um estilo chamado por Hijikata “ankoku butô” (“dança das trevas”, em japonês), o butô se caracteriza pela pintura corporal branca usada pelos dançarinos e pelos movimentos extremamente lentos.

Nascido na ilha de Hokkaido em 1906, Ohno só começou a dançar em 1933, quando entrou para o estúdio de Baku Ishii, influenciado pela dançarina de flamenco La Argentina – a quem homenageou anos mais tarde.

A influência de Ohno na cultura foi além da dança - e ele chegou a ser capa do disco “The crying light”, do grupo norte-americano Anthony & The Johsons.

Fonte:G1.com.br

Saiba mais sobre Kazuo Ohno: http://pt.wikipedia.org/wiki/Kazuo_Ohno