segunda-feira, 10 de maio de 2010

Reflexões Teatrais 3 - (Jerzy Grotowski)

"...o material do ator é o próprio corpo, e esse deve ser treinado para obedecer, para ser flexível, para responder passivamente aos impulsos psíquicos, como se não existisse no momento da criação - não oferecendo resistência alguma. A espontaneidade e a disciplina são os aspectos básicos do trabalho do ator, e exigem uma chave metódica."

Jerzy Grotowski
(Em busca de um Teatro Pobre, 1968)

Tragédias gregas

Para conhecer algumas das tragédias de Ésquilo, Sófocles e Eurípedes acesse o link e leia (ou baixe) os arquivos.


E saiba um pouco mais sobre a  biografia dos três grandes escritores gregos:


(Eurípedes)

(Sófocles)

(Ésquilo)

domingo, 2 de maio de 2010

REFLEXÕES TEATRAIS 2 - (Peter Brook)

“Posso escolher qualquer espaço vazio e considerá-lo um palco nu. Um homem atravessa esse espaço vazio enquanto outro o observa. Isso é suficiente para criar uma ação cênica.”

Peter Brook
(O Espaço Vazio, 1968)

O Teatro - As origens 2

Os Concursos Trágicos - Séc. IV a.C
As encenações trágicas, tais como as conhecemos, tiveram início com a institucionalização da chamada Dyonissia, os "Concursos Trágicos", no governo do tirano ateniense Pisístrato (cerca 536-534 a.C.). Famoso por ter sido "hábil e bonachão", rapidamente compreendeu a potencialidade política do Teatro, usando-o para popularizar o seu regime. Sólon (668-559 a.C.), o mais famoso legislador ateniense, ao dar-se conta disso, certa vez abandonou em pleno andamento, uma representação que assistia em protesto contra a manipulação política das artes. O velho sábio, desiludido, retirou-se do teatro sentindo-se vencido.

As Dionisias Urbanas começavam com vários rituais religiosos (Procissões cultos ) até entrar na fase mais ligada propriamente ao teatro e ao concursos. Dois dias eram reservados os ditirambos, um dia ás comédias, com cincos dramaturgos na competição; e três dias à tragédia . Seis dias eram devotados ao grande festival; cinco após 431 a.C. – com cincos apresentações diárias durante os últimos três dias – três tragédias e um "drama satírico" fálico pela manhã uma ou duas comédias à tarde. Três dramaturgos competiam pelo prêmio de tragédia, cada um com três tragédias e um drama satírico, sendo que as peças eram mais ou menos correlatas.

(Ditirambo: Canto coral; Ode (hino) alegre para os deuses)

"Muitas das grandes encenações do teatro ateniense estão irremediavelmente perdidas. Do trabalho de todos os dramaturgos que ganharam os prêmios anuais sobreviveram apenas as peças de Ésquilo, Sófocles, Éuripides e Aristófanes, e mesmo assim apenas uma fração das suas obras".

O custo da produção era dividido entre o Estado, responsável pela manutenção do teatro, pelo pagamento do coro e dos prêmios, e os coregos, espécie de mecenas da época, escolhidos entre os poderosos da cidade, que subvencionavam os atores, os cenários e os figurinos.  Os prêmios eram destinados aos poetas e, mais tarde, também aos atores e coregos. Não é conhecido, porém critério que estabelecia quem concorria a premiação.

((As funções do coro foram muitas, desde agente da ação, a modelo ético e padrão social. Chamado de o espectador ideal pela crítica do século XX, o coro permite, ainda, a criação de atmosferas, acrescenta música e movimento ao espetáculo, além de possibilitar convencionais passagens de tempo)).

ARISTÓTELES (384 a.C - 322 a.C)

(Busto de Aristóteles em exposição no museu do Louvre)

O século IVa.C foi também à era da crítica, foi o período da criação da "Arte Poética", na qual Aristóteles configurou os princípios da dramaturgia grega tais como os encontrou nas obras de seus contemporâneos e predecessores. Suas lúcidas definições são um marco na história da critica teatral, embora sua influência sobre o teatro europeu, iniciada na Renascença (entre os séculos XIII e XVII), tenha sido de certo modo nociva, em grande parte por ter sido mal compreendida e tomada literalmente.

((ARTE POÉTICA: Obra escrita por Aristóteles, dividida em duas partes: a primeira desenvolve um conceito de poesia como imitação de ações , que se afasta, ou mesmo contrapõe, ao de Platão, para quem a poesia era narração e não imitação. A segunda estuda a tragédia, uma das espécies ou generos da poesia dramática, e faz a comparação da tragédia e da epopeia, um genero da poesia narrativa ou não-dramática)).

Para Aristóteles a tragédia consiste na imitação de uma ação e é sobretudo por meio da ação que ela imita as personagens em movimento. Sublinhou a importância da trama dotada de começo, meio e fim, e deu especial destaque à unidade de ação, ademais, segundo a Poética, o deslindar da trama deve surgir da própria trama: dentro da ação nada deve ser irracional. As personagens devem revelar-se, não apenas pelo que fazem, como também por sua inclinação moral (ethos), e por sua forma de raciocínio (dianóia).

Para o efeito geral da tragédia, Aristóteles desenvolveu a teoria da Catarse, segundo a qual a tragédia purifica as emoções através da “piedade” e do “terror”. Tendemos a interpretar essa idéia como um processo terapêutico por meio do qual o espectador se identifica com os sofredores no palco e se livra, assim, de seus próprios demônios.

Tragédia como Catarse:

No primeiro volume da Arte Poética, Aristóteles formulou as regras básicas para a arte teatral: a peça deveria respeitar as unidades de tempo (a trama deveria desenvolver-se em 24h), de lugar (um só cenário) e de ação (uma só história) e concentrou-se no comportamento do público. Concluiu que o espetáculo trágico para realizar-se como obra de arte deveria sempre provocar a CATARSE (Katharsis).

A catarse ocorre quando o herói passa da felicidade para a infelicidade:

> O centro do espetáculo teatral gira em torno do destino infeliz do herói, tema comum a maior parte das narrativas e das sagas antigas. Nelas ele é apresentado como um vencedor que está no esplendor da vida, usufruindo de riquezas e conquistas até que se vê vítima de uma alteração brusca do destino. Um acontecimento terrível, sufoca as suas alegrias, e o leva a desgraça, arremessando-o ao mundo das sombras. Assim como em Édipo Rei (Sófocles): Édipo, cumprindo uma profecia, mata o rei e casa-se com a rainha viúva. Mais tarde descobre que o "rei assassinado" era seu pai,  e a rainha viúva com quem se casara (e com quem teve quatro filhos), sua própria mãe. O que o faz arrancar os próprios olhos como penitencia. (Inspirado nessa história, Sigmund Freud formulou o complexo de Édipo).

SÉCULO III a.C

Nesse período o teatro gozou de certo sucesso em Alexandria sob o esclarecido mecenato de Ptolomeu II que fez de sua biblioteca o repositório da cultura grega. Infelizmente o incêndio dessa biblioteca representa até hoje uma irreparável perda para o mundo cultural. O incêndio da biblioteca de Ptolomeu II deu cabo ao primeiro grande ciclo da dramaturgia mundial.

ROMA

No século III a.C os romanos começam a traduzir e adaptar obras gregas. Neste mesmo período surgem dois grandes escritores romanos: Plauto e Terêncio.
  Com a invasão e supremacia de Roma em toda a parte oriental do Mediterrâneo, a vitalidade do teatro grego decai após o século I d. C. O teatro grego, contudo, continua em pleno vigor nos dias atuais.

Para saber mais:

Leia a Arte Poética de Aristóteles, acesse:
http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/cv000005.pdf

terça-feira, 27 de abril de 2010

O Teatro - As origens 1

Quando surgiu o teatro? Na história esse é um momento dificil de se precisar. Sendo o teatro a "arte de imitar", podemos considerar que o teatro originou-se no momento em que um ser humano começou a imitar o outro.

(Grécia Antiga)
Porém, registros históricos referem-se às encenações teatrais na grécia antiga, que datam do séc. VII a.C. Ali, o teatro era representado por um "Coro" que comandava os rituais ao deus "Dionísio" (Baco para os romanos), deus do vinho na mitologia grega. Utilizavam-se de máscaras, coturnos, dançavam e cantavam. Naquele momento ainda não existia a figura do ator. O ritual era cumprido com o sacrificio de um bode em oferenda a Dionísio. A pele do animal era arrancada e todos dançavam sobre ela. Os que resistiam até raiar o dia tinham direito a carne e pele do animal.

(Na mitologia, Dionisio ensinou aos homens o cultivo das vinhas. Um bode teria derrubado as parreiras, sendo assim castigado com a morte).

Com a importancia desses rituais criou-se um espaço para sua realização. Surge aí o THÉATRON. (Curiosidade: No século V a.C as arquibancadas eram feitas de madeira, e eram desmontadas ao final das apresentações. As arquibancadas de pedra só foram ser construídas no século IV a.C.)

((A palavra TEATRO é originária do Grego: THÉATRON, ou seja, "o lugar de onde se vê")).

Nos rituais ao deus Dionisio, procurava-se reproduzir o mito. O coro, cantando em procissão, dirigia-se ao local do culto. Conta-se que certa vez, no século V a. C., um integrante do coro, de nome Téspis, fortemente imbuído do espírito do ritual, saiu do coro e afirmou: "Eu sou Dionísio". Nasce assim o primeiro ator, e o gênero lírico.

(Conta-se que Solon, legislador grego, perguntou se Téspis não se envergonhava de mentir, fingindo ser alguém que não era. Tespis respondeu: "Mas só estou brincando". Após ouvir, Solon o chamou de "hypocrites" (hipócrita), ou seja, aquele que finge ser alguém que não é. Assim, no início, o ator era chamado de hypocrites).

Naquele momento, ao fundir os gêneros Lírico e Épico (usar a primeira pessoa fingindo ser a terceira), Tespis também faz surgir o gênero Dramático. E começam a ser criados textos para o teatro.

((A palavra  DRAMA,  originária do Grego – dram –  quer dizer Ação - "fazer acontecer")).

Teatro > definição: algo para ser visto; algo para ser feito. Uma ação que é testemunhada.

(Principais escritores - tragédia grega)
O primeiro grande escritor de tragédias foi Ésquilo (525 a.C à 426 a.C) autor de Prometeu Acorrentado, e inseriu o segundo ator no teatro. Outros dois grandes foram Sófocles (496 a.C à 406 a. C) autor de Édipo Rei, que insere o terceiro ator. E Eurípedes (484 a.C à 406 a.C) autor de Medéia e Electra, que não se utiliza mais do coro.
Na comédia antiga seu maior representante é Aristófanes (447 a.C. – 385 a.C.) autor de Lisistrata e As Vespas. Um pouco depois surge a comédia nova (comédia de costumes), que tem como principal representante Menandro (342 a.C. – 292 a.C.) autor de O Misantropo.

(clique na imagem para ampliar)


Resumo:

No começo, o teatro restringiu-se apenas às festas dionisíacas, passando a ocupar um espaço maior na cultura grega com o passar dos anos, tornando-se mais acessível e mais aceita pelos gregos, que começaram a elaborar no Séc. V a.C. fábulas e histórias diversas a serem encenadas para o público. Essa forma inovadora de se passar mensagens através de histórias dramáticas ficou conhecida como Tragédia Grega.

Téspis sai do coro e diz: "Eu sou Dionísio", criando assim o primeiro ator.

Os efeitos visuais de espetáculo grego ficavam por conta de "figurinos" e "máscaras". Um sapato de solado exageradamente alto, chamado coturno, era usado para elevar a estatura do ator, ajudando-o a projetar sua figura.

A arquitetura do teatro grego era estruturada em dois segmentos separados, o " théatron" e a " skené" , ligados pela " orchéstra" . A lotação completa de um auditório era cerca de 20 mil pessoas, mais ou menos 10% da população da Ática no século V. Primeiro as arquibancadas eram de madeiras e desmontadas ao final do espetáculo, um século depois seriam construidas de concreto.

Reflexões teatrais

Posso ensinar a um jovem ator qual o movimento para apontar a lua. Porém, entre a ponta de seu dedo e a lua, a responsabilidade é dele. Quando atuo, o problema não está na beleza do meu gesto. Para mim, a questão é uma só: será que o público viu a lua?"

Yoshi Oida - Ator e Diretor Japonês

(1933 - )

"Um ator errante"

terça-feira, 20 de abril de 2010

Reflexões - Escolas de Teatro

Discutir teatro é algo tão intenso quanto falar de politica, religião ou futebol. Pelo menos para atores, diretores, encenadores, técnicos, e "pessoas interessadas".

Uma das grandes discórdias é, sem dúvida, o assunto "Escolas de Teatro".

Há os que dizem que as escolas de teatro são verdadeiros caça-níqueis. Não estão interesadas com a formação do ator, que inclui a paixão pela arte e o conhecimento básico do teatro.

Outros dizem que as escolas de teatro são na verdade espaços para todos que querem perder a timidez, se sociabilizar, melhorar a oratória, e por aí vai.

Eu costumo dizer que essas escolas cumprem um papel importante para nós, artistas e técnicos envolvidos com o teatro. Elas formam público!

Num bate-papo com Antunes filho, há duas semanas, arrisquei pedir sua opinião sobre as escolas de teatro: - "...Cada vez mais as escolas buscam "profissionalizar" atores. Excluindo a ECA, o CPT, a EAD e a recém criada SP Escola de Teatro -que tem outra vertente e filosofia-, será que essas grandes e caras escolas realmente cumprem com o seu papel, o de formar atores?"

- "A profissionalização do ator é importante - disse ele - agora, quem faz a escola é o aluno! E quem faz o ator, é o próprio ator". ....e mesmo que você encontre professores cansados de dar aulas pra quem só pensa em fama e trabalhar na novela da globo, tenho certeza que eles darão atenção aos que se mostrarem interessados." E finalizou: ".....O problema é que hoje em dia, todo mundo quer ser artista!"

Como discordar do bom e velho Antunes, se cada vez mais as escolas de teatro estão lotadas?!

Aliás, nesse mesmo dia descobri que o Antunes divide comigo a mesma paixão pelas obras do escritor norueguês Henrik Ibsen. E me aproveitando dessa "semelhança de gostos", me aproximei e converçamos mais sobre o grande escritor.

Por fim, voltando às escolas...

Chego a defender, às vezes, que essas escolas "técnicas de teatro" deviam participar dos provões feitos pelo MEC como acontecem com faculdades e escolas de ensino médio e fundamental. Claro, provas específicas: teatro mundial, brasileiro, etc. Afinal, essas escolas são regulamentadas pelo próprio MEC. Portanto são instituições de "Ensino".

Ou não?

(postado originalmente no site: http://montecostello.blogspot.com/2010/04/reflexoes-1.html)

sábado, 3 de abril de 2010

A obra é para sempre.

Como pode a vida, num rompante inconsequente, nos tirar a presença de artistas tão fabulosos?

Será que realmente terão cumprido o seu papel e por isso seguem seu destino para caminhar por novos rumos, novas batalhas, e feitos brilhantes?

Hoje nos deixou Buza Ferraz, um cara que, mesmo não conhecendo pessoalmente, aprendi a respeitar pelo seu trabalho e a dedicação para com o resignio de ator. E foi-se jovem, aos 59 anos.
Isso me remete a tantos outros que também se foram jovens, ou senão, jovens num corpo mais amadurecido. Cujas rugas são tão somente a marca do sofrimento, do amor e da alegria, e de tantos outros sentimentos vividos no belo ofício de atuar.

Qual será essa força que nos transcede à marca da eternidade? É a obra que damos vida. Assim é para os músicos, pintores, atores e escritores. A arte, seja a primeira ou a sétima, é a força maior da humanidade, presente nas periferias e nos grandes centros.

Essa força pode ser percebida quando um ator não morre "intelectualmente". Um exemplo: Quem é que nunca se perguntou se Marlon Brando está vivo ou morto? E Paul Newman?

Outro dia me perguntavam alguns amigos se Dercy Gonçalves estava viva? E eu disse que sim. Pois a obra de um artista nunca morre.